TEXTOS EDUCATIVOS

Neste espaço você encontrará muitos textos acerca de diversos temas. Entre eles as diversas formas de linguagem.

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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

NARRAÇÃO, DESCRIÇÃO E DISSERTAÇÃO

Géneros Literários - Género Narrativo
Esquema da narração

Tipos de redacção ou composição

Tudo o que se escreve recebe o nome genérico de redacção (ou composição). Existem três tipos de redacção: descrição, narração e dissertação. É importante que perceba a diferença entre elas. Leia, primeiramente, as seguintes definições:



Descrição

É o tipo de redacção na qual se apontam as características que compõem um determinado objecto, pessoa, ambiente ou paisagem.

Exemplo:

A sua estatura era alta e seu corpo, esbelto. A pele morena reflectia o sol dos trópicos. Os olhos negros e amendoados espalhavam a luz interior de sua alegria de viver e jovialidade. Os traços bem desenhados compunham uma fisionomia calma, que mais parecia uma pintura.



Narração

É a modalidade de redacção na qual contamos um ou mais factos que ocorreram em determinado tempo e lugar, envolvendo certas personagens.

Exemplo:

Numa noite chuvosa do mês de Agosto, Paulo e o irmão caminhavam pela rua mal-iluminada que conduzia à sua residência. Subitamente foram abordados por um homem estranho. Pararam, atemorizados, e tentaram saber o que o homem queria, receosos de que se tratasse de um assalto. Era, entretanto, somente um bêbado que tentava encontrar, com dificuldade, o caminho de sua casa.

Dissertação

É o tipo de composição na qual expomos ideias gerais, seguidas da apresentação de argumentos que as comprovem.

Exemplo:

Tem havido muitos debates sobre a eficiência do sistema educacional. Argumentam alguns que ele deve ter por objectivo despertar no estudante a capacidade de absorver informações dos mais diferentes tipos e relacioná-las com a realidade circundante. Um sistema de ensino voltado para a compreensão dos problemas socio-económicos e que despertasse no aluno a curiosidade científica seria por demais desejável.

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Não há como confundir estes três tipos de redacção. Enquanto a descrição aponta os elementos que caracterizam os seres, objectos, ambientes e paisagens, a narração implica uma ideia de acção, movimento empreendido pelos personagens da história. Já a dissertação assume um carácter totalmente diferenciado, na medida em que não fala de pessoas ou factos específicos, mas analisa certos assuntos que são abordados de modo impessoal.



A NARRAÇÃO



Tipos de narrador

Narrar é contar um ou mais factos que ocorreram com determinadas personagens, em local e tempo definidos. Por outras palavras, é contar uma história, que pode ser real ou imaginária.

Quando vai redigir uma história, a primeira decisão que deve tomar é se você vai ou não fazer parte da narrativa. Tanto é possível contar uma história que ocorreu com outras pessoas como narrar factos acontecidos consigo. Essa decisão determinará o tipo de narrador a ser utilizado na sua composição. Este pode ser, basicamente, de dois tipos:

1. Narrador de 1ª pessoa: é aquele que participa da acção, ou seja, que se inclui na narrativa. Trata-se do narrador-personagem. 1. Narrador de 1ª pessoa: é aquele que participa da acção, ou seja, que se inclui na narrativa. Trata-se do narrador-personagem.

Exemplo:

Andava pela rua quando de repente tropecei num pacote embrulhado em jornais. Agarrei-o vagarosamente, abri-o e vi, surpreso, que lá havia uma grande quantia em dinheiro.

2. Narrador de 3ª pessoa: é aquele que não participa da acção, ou seja, não se inclui na narrativa. Temos então o narrador-observador. 2. Narrador de 3ª pessoa: é aquele que não participa da acção, ou seja, não se inclui na narrativa. Temos então o narrador-observador.

Exemplo:

João andava pela rua quando de repente tropeçou num pacote embrulhado em jornais. Agarrou-o vagarosamente, abriu-o e viu, surpreso, que lá havia uma grande quantia em dinheiro.

OBSERVAÇÃO:

Em textos que apresentam o narrador de 1.ª pessoa, ele não precisa ser necessariamente a personagem principal; pode ser somente alguém que, estando no local dos acontecimentos, os presenciou.

Exemplo:

Estava parado na paragem do autocarro, quando vi, a meu lado, um rapaz que caminhava lentamente pela rua. Ele tropeçou num pacote embrulhado em jornais. Observei que ele o agarrou com todo o cuidado, abriu-o e viu, surpreso, que lá havia uma grande quantia em dinheiro.



Elementos da narração

Depois de escolher o tipo de narrador que vai utilizar, é necessário ainda conhecer os elementos básicos de qualquer narração.

Todo o texto narrativo conta um FACTO que se passa em determinado TEMPO e LUGAR. A narração só existe na medida em que há acção; esta acção é praticada pelos PERSONAGENS.

Um facto, em geral, acontece por uma determinada CAUSA e desenrola-se envolvendo certas circunstâncias que o caracterizam. É necessário, portanto, mencionar o MODO como tudo aconteceu detalhadamente, isto é, de que maneira o facto ocorreu. Um acontecimento pode provocar CONSEQUÊNCIAS, as quais devem ser observadas.

Assim, os elementos básicos do texto narrativo são:

1. FACTO (o que se vai narrar);

2. TEMPO (quando o facto ocorreu);

3. LUGAR (onde o facto se deu);

4. PERSONAGENS (quem participou do ocorrido ou o observou);

5. CAUSA (motivo que determinou a ocorrência);

6. MODO (como se deu o facto);

7. CONSEQUÊNCIAS.

Uma vez conhecidos esses elementos, resta saber como organizá-los para elaborar uma narração. Dependendo do facto a ser narrado, há inúmeras formas de dispô-los. Todavia, apresentaremos um esquema de narração que pode ser utilizado para contar qualquer facto. Ele propõe-se situar os elementos da narração em diferentes parágrafos, de modo a orientá-lo sobre como organizar adequadamente a sua composição.



Esquema de narração



1º Parágrafo: Explicar que facto será narrado. Determinar o tempo e o lugar INTRODUÇÃO

2º Parágrafo: Causa do facto e apresentação das personagens. DESENVOLVIMENTO

3º Parágrafo: Modo como tudo aconteceu (detalhadamente).
4º Parágrafo: Consequências do facto. CONCLUSÃO

OBSERVAÇÕES:

1. É bom lembrar que, embora o elemento Personagens tenha sido citado somente no 2º parágrafo (onde são apresentados com mais detalhes), eles aparecem no decorrer de toda a narração, uma vez que são os desencadeadores da sequência narrativa.

2. O elemento Causa pode ou não existir na sua narração. Há factos que decorrem de causa específica (por exemplo, um atropelamento pode ter como causa o descuido de um peão ao atravessar a rua sem olhar). Existe, em contrapartida, um número ilimitado de factos dos quais não precisamos explicar as causas, por serem evidentes (por exemplo, uma viagem de férias, um assalto a um banco, etc.).

3. três elementos mencionados na Introdução, ou seja, facto, tempo e lugar, não precisam necessariamente aparecer nesta ordem. Podemos especificar, no início, o tempo e o local, para depois enunciar o facto que será narrado.

Utilizando esse recurso, pode narrar qualquer facto, desde os incidentes que são noticiados nos jornais com o título de ocorrências policiais (assaltos, atropelamentos, raptos, incêndios, colisões e outros) até factos corriqueiros, como viagens de férias, festas de adeptos de futebol, comemorações de aniversário, quedas e acontecimentos inesperados ou fora do comum, bem como quaisquer outros.

É importante ressaltar que o esquema apresentado é apenas uma sugestão de como se pode organizar uma narração. Temos inteira liberdade para nos basearmos nele ou não. Mostra-se apenas uma das várias possibilidades existentes de se estruturarem textos narrativos. Caso se deseje, poderá inverter-se a ordem de todos os elementos e fazer qualquer outra modificação que se ache conveniente, sem prejuízo do entendimento do que se quer transmitir. O fundamental é conseguir-se contar uma história de modo satisfatório.



A narração objectiva

Observe-se agora um exemplo de narração sobre um incêndio, criado com o auxílio do esquema estudado. Lembre-se de que, antes de começar a escrever, é preciso escolher o tipo de narrador. Optámos pelo narrador de 3ª pessoa.



O incêndio

Ocorreu um pequeno incêndio na noite de ontem, num apartamento de propriedade do Sr. António Pedro.

No local habitavam o proprietário, a sua esposa e os seus dois filhos. Todos eles, na hora em que o fogo começou, tinham saído de casa e estavam a jantar num restaurante situado em frente ao edifício. A causa do incêndio foi um curto circuito ocorrido no sistema eléctrico do velho apartamento.

O fogo começou num dos quartos que, por sorte, ficava na frente do prédio. O porteiro do restaurante, conhecido da família, avistou-o e imediatamente foi chamar o Sr. António. Ele, rapidamente, ligou para os Bombeiros.

Embora não tivessem demorado a chegar, os bombeiros não conseguiram impedir que o quarto e a sala ao lado fossem inteiramente destruídos pelas chamas. Não obstante o prejuízo, a família consolou-se com o facto de aquele incidente não ter tomado maiores proporções, atingindo os apartamentos vizinhos.

Vamos observar as características desta narração. O narrador está na 3ª pessoa, pois não toma parte na história; não é nem membro da família, nem o porteiro do restaurante, nem um dos bombeiros e muito menos alguém que passava pela rua na qual se situava o prédio. Outra característica que deve ser destacada é o facto de a história ter sido narrada com objectividade: o narrador limitou-se a contar os factos sem deixar que os seus sentimentos, as suas emoções transparecessem no decorrer da narrativa.

Este tipo de composição denomina-se narração objectiva. É o que costuma aparecer nas "ocorrências policiais" dos jornais, nas quais os redactores apenas dão conta dos factos, sem se deixar envolver emocionalmente com o que estão a noticiar. Este tipo de narração apresenta um cunho impessoal e directo.



A narração subjectiva

Existe também um outro tipo de composição chamado narração subjectiva. Nela os factos são apresentados levando-se em conta as emoções, os sentimentos envolvidos na história. Nota-se claramente a posição sensível e emocional do narrador ao relatar os acontecimentos. O facto não é narrado de modo frio e impessoal, pelo contrário, são ressaltados os efeitos psicológicos que os acontecimentos desencadeiam nas personagens. É, portanto, o oposto da narração objectiva.

Daremos agora um exemplo de narração subjectiva, elaborada também com o auxílio do esquema de narração. Escolhemos o narrador de 1.ª pessoa. Esta escolha é perfeitamente justificável, visto que, participando da acção, ele envolve-se emocionalmente com maior facilidade na história. Isso não significa, porém, que uma narração subjectiva requeira sempre um narrador em 1.



Com a fúria de um vendaval

Numa certa manhã acordei entediada. Estava nas minhas férias escolares do mês de Agosto. Não pudera viajar. Fui ao portão e avistei, três quarteirões ao longe, a movimentação de uma feira livre.

Não tinha nada para fazer, e isso estava a matar-me de aborrecimento. Embora soubesse que uma feira livre não constitui exactamente o melhor divertimento do qual um ser humano pode dispor, fui andando, a passos lentos, em direcção daquelas barracas. Não esperava ver nada de original, ou mesmo interessante. Como é triste o tédio! Logo que me aproximei, vi uma senhora alta, extremamente gorda, discutindo com um feirante.

O homem, dono da barraca de tomates, tentava em vão acalmar a nervosa senhora. Não sei por que brigavam, mas sei o que vi: a mulher, imensamente gorda, mais do que gorda (monstruosa), erguia os seus enormes braços e, com os punhos cerrados, gritava contra o feirante. Comecei a assustar-me, com medo de que ela destruísse a barraca (e talvez o próprio homem) devido à sua fúria incontrolável. Ela ia gritando empolgando-se com a sua raiva crescente e ficando cada vez mais vermelha, como os tomates, ou até mais.

De repente, no auge de sua ira, avançou contra o homem já atemorizado e, tropeçando em alguns tomates podres que estavam no chão, caiu, tombou, mergulhou, esborrachou-se no asfalto, para o divertimento do pequeno público que, assim como eu, assistiu àquela cena incomum.

OBSERVAÇÃO:

A narração pode ter a extensão que convier. Pode aumentá-la ou diminuí-la, suprimindo detalhes menos importantes. Lembre-se: quando um determinado parágrafo ficar muito extenso, pode dividi-lo em dois. Destacamos, mais uma vez, que o esquema dado é uma orientação geral e não precisa ser necessariamente seguido; ele pode sofrer variações referentes ao número de parágrafos ou à ordem de disposição dos elementos narrativos.



O discurso do narrador

Comparando os dois modelos de narração apresentados, poderá perceber a diferença entre narrador em 1ª e 3ª pessoas, a maneira como se elabora uma narração utilizando o esquema estudado, a existência da narração objectiva em oposição à narração subjectiva e alguns outros aspectos.

É importante também que observe um outro facto sobre o qual ainda não fizemos qualquer comentário. Lendo as narrações O incêndio e Com a fúria de um vendaval, notará com facilidade que o narrador contou cada uma das histórias com as suas próprias palavras. Ele não introduziu diálogos na redacção registando a fala dos 23 personagens. Essas duas narrações foram elaboradas sem que o narrador introduzisse o discurso directo, isto é, o diálogo entre as personagens.

Não se esqueça também de que o esquema de narração não precisa ser seguido à risca. Se julgar importante fazer qualquer alteração, nada o impede de fazê-la, desde que a sua composição não perca as características de organização e clareza indispensáveis a todas as narrações.






A NARRAÇÃO E OS TIPOS DE DISCURSO



Discurso directo e discurso indirecto

Agora veremos como introduzir o discurso directo (registo da fala dos personagens) no meio de uma narração, bem como transformá-lo em discurso indirecto.

O primeiro passo é conseguir diferenciar o discurso indirecto do discurso directo.

Veja estes exemplos:



Discurso indirecto

O rapaz, depois de estacionar o seu automóvel num pequeno posto de gasolina daquela estrada, perguntou a um funcionário onde ficava a cidade mais próxima. Ele respondeu que havia um vilarejo a dez quilómetros dali.



Discurso directo

O rapaz, depois de estacionar o seu automóvel num pequeno posto de gasolina daquela estrada, perguntou:

— Onde fica a cidade mais próxima ?

— Há um vilarejo a dez quilómetros daqui - respondeu o funcionário.

Observe o exemplo de discurso directo. Antes do registo da fala do personagem existe um travessão (—) que inicia um novo parágrafo. No último período desse texto notou que há também um outro travessão, colocado antes da palavra respondeu; ele serve para separar a fala do personagem da explicação do narrador ("respondeu o funcionário").

Quando o narrador quer informar qual a personagem que fala, o texto pode ser organizado de duas maneiras:

Primeiro explica-se quem vai falar. A frase termina por dois-pontos (:). Abre-se então um novo parágrafo para nele colocar o travessão, seguido da fala da personagem.
Exemplo:

O funcionário respondeu:

— Há um vilarejo a dez quilómetros daqui.

Em primeiro lugar, regista-se, depois de posto o travessão, a fala da personagem. Na mesma linha coloca-se um outro travessão e, em seguida, a frase pela qual o narrador explica quem está dizendo aquilo (iniciada por letra minúscula).
Exemplo:

— Há um vilarejo a dez quilómetros daqui - respondeu o funcionário.

OBSERVAÇÃO:

Já verbos que se caracterizam por introduzir a fala do personagem, ou mesmo explicar quem está a fazer a afirmação registada depois do travessão. Denominam-se verbos de elocução e alguns exemplos deles são: falar, perguntar, responder, indagar, replicar, argumentar, pedir, implorar, comentar, afirmar e muitos outros.

Vejamos agora um exemplo de como podemos introduzir o discurso directo numa narração.

Leia o texto abaixo, onde não aparece a fala dos personagens. É o narrador que conta os acontecimentos.



O primeiro dia no curso

Maria Helena acabava de matricular-se num famoso curso, desses que preparam os alunos para os exames.

Logo no primeiro dia de aulas, depois de subir os seis lances de escadas que a conduziam à sua turma de duzentos e quarenta alunos, entrou na sala espantada com a quantidade de colegas. Assistiu às três primeiras aulas (ou conferências) que os professores deram com o auxílio de microfones.

Quando deu o sinal do intervalo, tentou encontrar o bar que ficava no piso térreo. Maria Helena então começou a descer os seis lances de escadas, acompanhada por uma quantidade incontável de pessoas, ou seja, os colegas das outras quinze salas de aula existentes em cada andar.

Após algum tempo, chegou ao piso térreo. Olhou para todos os lados e não viu bar nenhum.

Pouco tempo depois, descobriu que o bar era ali mesmo, mas não dava para ver a caixa registadora, situada a alguns metros dela, de tanta gente que havia. Ela já estava na fila da caixa e não sabia.

Leia agora a mesma redacção, depois de introduzidos alguns trechos de discurso directo.



O primeiro dia no curso

Maria Helena acabava de matricular-se num famoso curso, desses que preparam os alunos para os exames.

Logo no primeiro dia de aulas, depois de subir os seis lances de escadas que a conduziam à sua turma de duzentos e quarenta alunos, entrou na sala, espantada com a quantidade de colegas. Assistiu às três primeiras aulas (ou conferências) que os professores deram com o auxílio de microfones.

Quando deu o sinal do intervalo, Maria Helena perguntou a um colega de classe:

— Você, por acaso, sabe onde fica a lanchonete?

— Fica no piso térreo — respondeu-lhe o colega gentilmente.

Ela então começou a descer os seis lances de escadas, acompanhada por uma quantidade incontável de pessoas, ou seja, os colegas das outras quinze salas de aula existentes em cada andar.

Após algum tempo chegou ao piso térreo.

— Por favor, você sabe onde fica o bar? Disseram que ficava no piso térreo — perguntou Maria Helena a uma moça que estava a seu lado.

— Mas você já está no bar!

Descobriu então que estava no lugar procurado, mas não dava para ver a caixa registadora, situada a alguns metros dela, de tanta gente que havia. Ela já estava na fila da caixa e não sabia.



A transformação do discurso directo em indirecto e vice-versa

Já aprendeu a identificar os dois tipos de discurso; notou que eles não são registados do mesmo modo. Vamos agora sistematizar as diferenças que pudemos perceber entre eles.



Discurso Directo
Discurso Indirecto

verbos no presente do indicativo (fica, há)
Pontuação característica (travessão, dois pontos)


Verbos no pretérito imperfeito do indicativo (ficava, havia)
Ausência de pontuação característica




Portanto, o primeiro passo para se transformar um tipo de discurso em outro consiste em efectuar as modificações mencionadas, ou seja, alterar o tempo dos verbos e utilizar a pontuação adequada. Entretanto, restam ainda alguns detalhes.



Tempos Verbais

No exemplo apresentado de discurso directo, as personagens utilizavam o verbo no presente do indicativo. E se eles se estivessem a expressar no pretérito ou noutro tempo verbal? Siga, na tabela seguinte, as correlações entre alguns tempos verbais e os tipos de discurso.




Discurso Directo Discurso Indirecto



presente do indicativo: — Tenho pressa — disse o rapaz. pretérito imperfeito do indicativo: O rapaz disse que tinha pressa.
pretérito perfeito do indicativo: — Presenciei toda a cena — declarou o jovem. pretérito mais-que-perfeito simples ou composto: O jovem declarou que presenciara (tinha presenciado) toda a cena.



imperativo: — Cala-te — ordenou o senhor ao seu vassalo.

pretérito imperfeito do subjuntivo: O senhor ordenou ao seu vassalo que ele se calasse.



futuro do presente do indicativo: — Farei o possível — disse o rapaz.

futuro do pretérito do indicativo: O rapaz disse que faria o possível.

Não vamos relacionar todos os tempos de verbos e as suas modificações. Acreditamos que basta uma observação de carácter geral: ao transformar o discurso directo em indirecto, estará a transcrever algo que alguém já disse; portanto, no discurso indirecto, o tempo será sempre passado em relação ao discurso directo. O mecanismo é basicamente o mesmo para todos os casos. Veja-se este último exemplo:

Discurso directo

— Quero que você me siga — disse Pedro. (presente do indicativo, presente do conjuntivo)

— Se estiver disposta, eu fá-lo-ei — replicou Paula. (futuro do conjuntivo, futuro do presente do indicativo)

Discurso indirecto

Pedro disse à Paula que queria que ela o seguisse. (pretérito imperfeito do indicativo, pretérito imperfeito do conjuntivo) Paula replicou que, se estivesse disposta, ela fá-lo-ia. (pretérito imperfeito do conjuntivo, futuro do pretérito do indicativo)



Pronomes e advérbios

Outras classes de palavras, como os pronomes e alguns advérbios, podem igualmente requerer alterações. Observe o exemplo:

Discurso directo

— Venha cá, minha filha — disse a mãe, impaciente.

— Estarei aí daqui a cinco minutos.

Discurso indirecto

A mãe, impaciente, pediu a sua filha que fosse até lá. Ela respondeu que estaria lá dali a cinco minutos.

Discurso directo

— Onde estão os meus bilhetes para o espectáculo de patinagem? — perguntou Pedro.

— Estavam aqui ainda neste instante! — replicou Maria.

Discurso indirecto

Pedro perguntou a Maria onde estavam os seus ingressos para o espectáculo de patinagem. Ela replicou que eles estavam ali ainda naquele instante.



Um acto involuntário

Após assistir às aulas do curso, no seu primeiro dia de aulas, Maria Helena dirigiu-se à paragem do autocarro.

Na paragem havia dezenas de pessoas, alunos com o seu material escolar na mão, à espera dos transportes colectivos que passavam por aquela imensa avenida. Aproximava-se o seu autocarro. Ao avistá-lo, notou que vinha superlotado e decidiu esperar por um outro veículo da mesma linha. Ele certamente passaria cinco minutos depois.

Ela estava na paragem, cercada por inúmeras pessoas, e não sabia que a maioria delas iria entrar nesse autocarro. De repente, quando o veículo parou, todos correram em direcção à porta, empurrando Maria Helena. Ela, sem querer, impulsionada pelos outros que a circundavam, subiu a escadinha do autocarro, contra a sua vontade, tal o número de pessoas que a comprimiam.

Já dentro do veículo, ouviu a inútil solicitação do cobrador para que as pessoas dessem um passo à frente. Não havia para onde ir, nem mesmo como se mexer, devido à superlotação.

OBSERVAÇÃO:

Sugerimos a introdução, após o primeiro parágrafo, de uma conversa entre Maria Helena e uma outra pessoa que também estivesse na paragem do autocarro. Também é possível criar um diálogo entre um dos passageiros e o cobrador. Além dessas sugestões, pode imaginar qualquer outro diálogo relacionado com a história narrada.






Níveis de linguagem

Vamos falar agora sobre os tipos de linguagem que pode utilizar nas suas narrações.

Como já deve ter ouvido dizer, existem basicamente dois níveis de linguagem: a linguagem formal e a linguagem coloquial.

Entendemos por linguagem formal a língua culta, que se caracteriza pela correcção gramatical, ausência de gírias ou termos regionais, riqueza de vocabulário e frases bem elaboradas.

A linguagem coloquial, por sua vez, é aquela que as pessoas utilizam no dia-a-dia, conversando informalmente com amigos, parentes e colegas. É a linguagem descontraída, que dispensa formalidades e aceita gírias, diminutivos afectivos e palavras de cunho regional.

A narração, pode comportar os dois níveis de linguagem. Recomendamos que utilize a linguagem formal nas frases do narrador e a linguagem coloquial no registo da fala de algumas personagens. Expliquemos melhor: se registar, no discurso directo, a fala de um alentejano, poderá utilizar palavras ou expressões típicas do linguajar da sua região, para dar um cunho de veracidade à composição; se a conversa estiver a ser travada entre dois adolescentes, cabe a introdução de algumas gírias. Dessa forma, a redacção torna-se mais convincente, na medida em que cada personagem é apresentada com o registo de fala que normalmente o caracteriza.

Isso não significa, porém, que o discurso directo deva sempre estar relacionado com a linguagem coloquial. Pelo contrário, tratando-se de personagens cultos (ou mesmo razoavelmente instruídos), deve utilizar a linguagem formal no registo das suas falas.

OBSERVAÇÃO:

Esteja atento às solicitações que possam ser feitas nas redacções que vier a realizar. Caso se peça para elaborar uma narração utilizando a linguagem formal, este tipo de linguagem deverá aparecer em toda a composição, independentemente de quem sejam as personagens envolvidas nos trechos do discurso directo.

Veja, nestes pequenos trechos a seguir, como os dois tipos de linguagem podem aparecer no discurso directo. Lembre-se de que o narrador vale-se sempre da linguagem formal.



Linguagem coloquial

Os dois amigos encontraram-se no pátio do colégio, na hora do intervalo, e Marcos perguntou:

— Como é que é, Zé ? Tás a fim de dar uns giros por aí depois da aula ?

— Normal ! A gente pode chamar o Nandinho e ir pra uma esplanada -respondeu José bastante animado.

— É isso. Deixa-me ir, que já tocou — disse Marcos apertando o passo.



Linguagem formal

No corredor de uma universidade, um eminente professor de Direito Penal encontra um ex-aluno, agora seu colega. O professor diz-lhe:

— Que prazer encontrá-lo depois de tanto tempo!

— Como está, professor? É bom revê-lo — sorriu o ex-aluno emocionado. — O senhor nem pode imaginar o quanto me foram úteis os conhecimentos que adquiri nas suas aulas.

— Você sempre foi um bom aluno. Tinha a certeza de que se tornaria um advogado notável.

Última Actualização ( Quarta, 29 Junho 2005 )
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quarta-feira, 20 de outubro de 2010

LINGUAGEM NA INTERNET E CELULAR



Um estudo realizado no ano passado por um professor universitário na Austrália revelou que os jovens, se têm facilidade para escrever mensagens de maneira abreviada, podem não ter tanta habilidade assim para lê-las. Quase metade dos 55 estudantes envolvidos demorou duas vezes mais para ler do que para escrever mensagens do tipo “Vc q tc?”. Por que então a linguagem simplificada virou praxe entre quem usa a internet e costuma mandar mensagens de texto pelo telefone celular? A professora Maria Teresa de Assunção Freitas, da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), sugere algumas possibilidades. Ela é autora do livro Leitura e Escrita de Adolescentes na Internet e na Escola.
1. Por que as pessoas abreviam a linguagem na web?
2. Onde e por quem essa linguagem abreviada é mais usada?
3. Por que essa linguagem tem mais adeptos entre os adolescentes?
4. Isso já acontecia antes em outros meios?
5. A escrita abreviada e simplificada prejudica a compreensão?
6. Há padrões de escrita para internet e celular?
7. Essa escrita vicia?
8. Essa linguagem pode modificar a língua que falamos?
9. A internet faz o adolescente ler menos?
10. Exemplos da linguagem da internet





1. Por que as pessoas abreviam a linguagem na web?
Para a professora Maria Teresa de Assunção Freitas, são dois os principais motivos da abreviação de palavras: o primeiro, a facilidade de se escrever de modo simplificado, e o segundo, a pressa. Esta, por sua vez, está ligada a outras duas razões: a economia (mandar uma mensagem maior pelo celular pode custar mais) e o desejo de reproduzir virtualmente o ritmo de uma conversa oral. “É para acelerar o bate-papo, que na internet, em chats e programas de mensagem instantânea, acontece em tempo real”, explica a especialista. “No celular, há o agravante do teclado, que é menor, e do preço, que é maior.” Uma terceira causa seria o desejo do adolescente de pertencer a um grupo: ele pode adaptar a sua escrita à linguagem da comunidade de que quer fazer parte - com o uso dos termos adaptados, ele adere aos códigos do grupo.

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2. Onde e por quem essa linguagem abreviada é mais usada?
Os principais autores da escrita simplificada são os jovens e, entre eles, os adolescentes. Eles fazem uso desse tipo de linguagem no celular e na internet, especialmente em canais de relacionamento, como o Orkut e o MSN. “Mas essa linguagem teve início nos chats”, afirma a professora Maria Teresa, que já realizou uma pesquisa na área, também começando pelas salas de bate-papo virtuais. Nos e-mails, segundo ela, a escrita abreviada tem menos lugar porque se trata de um meio de comunicação assíncrono, ou seja, a informação é enviada em intervalos irregulares: uma pessoa envia uma mensagem para outra, mas não sabe quanto terá uma resposta. É um ritmo parecido com o da tradicional troca de cartas. No celular, a linguagem abreviada fica restrita aos torpedos, que são escritos.

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3. Por que essa linguagem tem mais adeptos entre os adolescentes?
Os adolescentes têm grande facilidade de se adaptar aos símbolos de um novo código, pelas características da própria idade. Não é de hoje que colegas de escola trocam bilhetinhos durante a aula. Longe das vistas do professor, trocam papéis amassados ou dobrados - se é que hoje não o fazem por celular ou mesmo pela internet, nos colégios onde o computador é instrumento de ensino. É próprio do adolescente criar código. No celular, porém, a adesão à linguagem simplificada é maior, devido à dificuldade de digitar no pequeno teclado do aparelho telefônico. Jovens adultos e adultos também vêm passando a utilizá-la.

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4. Isso já acontecia antes em outros meios?
Sim, mas de modo diferente. O telegrama é um meio de comunicação que faz uso da linguagem abreviada, mas segue um código mais formal, mais atento às regras ortográficas cultas. Não é usual, por exemplo, trocar “assim” por “axim” ou “endosso” por “endoço”. O telégrafo, aliás, chegou a fazer uso do Código Morse, que, com pontos e traços, facilitava a transmissão da mensagem. O texto era transmitido de forma codificada pelo telegrafista, que se colocava como intermediário entre emissor e receptor. Depois, a mensagem era transportada por navio, trem ou avião (mais tarde). Nas conversas pela internet ou pelo celular, essa figura não está presente, o que permite uma maior intimidade entre as partes envolvidas no diálogo. Além disso, a escrita da internet está contaminada pelos ares de sua época: ela é uma forma própria ao suporte em que se deita. “O contexto gera formas novas de utilizar a linguagem”, afirma a professora Maria Teresa.

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5. A escrita abreviada e simplificada prejudica a compreensão?
Quando duas pessoas dominam o mesmo código, não costuma haver dificuldade na troca de mensagens. Mas uma pessoa que nunca empregou uma linguagem como a que os adolescentes usam na internet pode achá-la uma loucura à primeira leitura. “Pais e mães podem pensar que é uma escrita errada, quando não é: é uma escrita feita para um suporte próprio, adaptada para uma determinada situação. Não há erro de ortografia, embora essa linguagem desobedeça à regra culta”, defende Maria Teresa. Dentro daquele sistema, explica a professora, a substituição de “ss” por “ç” faz sentido e não representa um erro. É claro também que, como demonstrou a experiência realizada na Austrália, pode haver maior dificuldade em ler a mensagem em voz alta do que escrever de maneira reduzida - especialmente se quem lê em voz alta não domina bem o código que está lendo.

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6. Há padrões de escrita para internet e celular?
A linguagem abreviada, especialmente a da web, segue os padrões da oralidade. Ela substitui uma conversa ou um bate-papo. “O interlocutor está presente e em tempo real, apesar da distância”, diz Maria Teresa. “Para andar mais rápido, se escrevem oxítonas com acento agudo sem acento e com ‘h’ no final, como ‘cafeh’, e se firmam acordos tácitos para uso de determinadas palavras, como ‘vc’ em vez de ‘você’ ou ‘tc’ em vez de ‘teclar’.” Outros elementos que fazem parte desse sistema são as representações de emoção, geradas para compensar a ausência física do interlocutor: "risos", "rs", "eheh", ":)", ":(", "[]", etc. Há diversas fontes na internet, como sites específicos e, o próprio MSN, onde usuários dessa linguagem podem copiar símbolos ou emoticons para depois usá-los em suas mensagens.

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7. Essa escrita vicia?
Muitos adolescentes ouvidos por Maria Teresa, em sua pesquisa, demonstraram saber separar as coisas. “Eles sabem que na escola não podem escrever da mesma forma que na internet”, diz ela. “Essa linguagem é um gênero novo de discurso, e os usuários sabem disso, sabem que é algo diferente do que está no livro ou em outro lugar.” Para a professora, uma prova de que os adolescentes sabem separar as coisas é que, quando o canal de filmes pago Telecine criou a sessão Cyber Vídeo, com legendas que se apropriavam do internetês, houve uma forte reação dos próprios adolescentes contra o método. “Eles diziam que não era linguagem própria para o cinema, que era linguagem de internet.” Dirigida ao público teen, a experiência do Telecine não foi mesmo para frente: estreou em 2005 e já no ano seguinte saiu do ar.

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8. Essa linguagem pode modificar a língua que falamos?
É possível que essa linguagem venha, no futuro, a modificar a língua que falamos. Já começamos a incorporar, no português do Brasil, os termos da informática e da internet, como "deletar", "caps lock", "control+c", "control+v", "control+z". Há muita gente rindo em voz alta como na web: “eheheh”. “A língua é uma coisa viva, porque falada. Só a língua morta, como é o caso do latim, permanece estática. Há palavras do português que sumiram, enquanto outras foram incorporadas. A língua é dinâmica, se transforma sempre”, diz Maria Teresa.

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9. A internet faz o adolescente ler menos?
Pelo contrário. A pesquisa da professora da UFJF mostra que a internet está levando o adolescente a ler e a escrever mais. O texto escrito foi redescoberto como forma de comunicação, e a leitura ganhou novos formatos. Há uma espécie de letramento digital. “A leitura é hipertextual: baseada no hipertexto, na utilização de links. Cada um faz a sua leitura, não precisa ser linear, enquanto o livro é geralmente linear”, pondera ela. Em resumo, no meio digital o leitor tem mais autoria na leitura - ele faz o seu próprio percurso, a sua seleção. E lê de maneira prazerosa, lúdica. “Isso é capaz de aproximar o adolescente da literatura. Há sites em que eles escrevem poesia, até de modo coletivo, e outros onde podem baixar e-books.”

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10. Exemplos da linguagem da internet
A "linguagem" da internet também fornece informações sobre o estado de espírito de quem escreve. Confira algumas amostras.
EMOTICONS

Sorriso :-) (-: :) =) :o)

Muito feliz (ou sorrindo muito) :-D

Triste ou indiferente :-( (:-( :-c :-< :-(((( :-t :-/

Sem expressão ou entediado :-| :-I

Surpreso ou de boca fechada :-X

Boca fechada (sem dizer uma palavra) :-v

Pensando ou assimilando :-I

Gritando :-O :-@

Chorando :,-( :'-(

Diabólico ou travesso ]:-)> ):-)

Piscando o olho ;-> ;-) ;) '-)

Beijo :-x :-*

De óculos 8-] 8-) B-)

Mostrando a língua :-J :-p

Bobo :-B

Bocejando |-O

Assoviando :-"

Abraço ((( ))) []'s

Rosa @->-



ACRÔNIMOS

Riso rs (abreviação de 'risos') ou kkkkkk
Gargalhada lol (iniciais de "laughing out loud", ou "rindo muito", em português)
Pensando ou assimilando hmmm ou huuum
Logo que der asap (inciais de "as soon as possible", ou "assim que possível", em português)
Já volto bbs (inciais de "be back soon", ou "volto logo", em português)


ABREVIAÇÕES

beleza blz

se c

que q

quando qd ou qdo

também tb, tbm ou tbém

tudo td

você vc



EXEMPLOS DE UMA ORTOGRAFIA PARTICULAR

achar axar

assim axim

é eh

então entaum

coloquei koloqei

como komo

amigo miguxo

não naum

nunca nunk

chegar xegar

qual Ql
quis Qz

você voxê ou vc

vocês v'6s ou vcs

só soh



Fonte: Microsoft (fabricante do MSN Messenger) e Maria Teresa de Assunção Freitas, professora da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF) e autora do livro Leitura e Escrita de Adolescentes na Internet e na Escola

sábado, 16 de outubro de 2010

SER PROFESSOR É...



SER PROFESSOR É...

ACRÓSTICO

Sempre busca, pesquisa, investe, cria, recria, faz, refaz
Estuda e objetiva o que é melhor para o discente.
Renasce para mais um dia. Sempre um eterno aprendiz!!!

Pronto para ouvir todos seus alunos, humilde para tentar
Resolver os problemas em sala, da melhor maneira possível.
Observa as mudanças que acontecem na Educação,
Fica angustiado... Começa idealizar seus sonhos e objetivos,
E recomeça com entusiasmo a cada dia o seu trabalho. Vive
Sem receios de caminhar e de enfrentar a jornada cotidiana.
Sabe de todas as adversidades, porém, não desiste! Luta e vence.
Os obstáculos não o deixam cair; pois ele é forte, é um guerreiro.
Renova-se para vida, porque trabalha de forma corajosa e digna.

TEXTO DA PROFESSORA
NEUSA AMORIM

15 DE OUTUBRO DE 2010

quarta-feira, 6 de outubro de 2010

Por que um, por que outro



Por que um, por que outro
Rogério Simões | 2010-10-04, 12:46

A ex-companheira de Lula acabou mesmo brilhando. Marina Silva tornou-se o elemento surpresa do primeiro turno da eleição presidencial e atrapalhou os planos do seu ex-colega de ativismo e partido. Ao perder a ministra Marina dois anos atrás, Luiz Inácio Lula da Silva deve ter pensado: "Paciência...". Certo de que Dilma Rousseff e seu desenvolvimentismo eram o caminho à frente, Lula certamente não imaginava que a antiga heroína dos seringueiros pudesse liderar uma chapa presidencial de peso e convencer quase 20 milhões de brasileiros a segui-la. Em tempos de aquecimento global, Marina Silva e o Partido Verde registraram um feito que já entra para a história da jovem democracia brasileira.

O PT e o o Palácio do Planalto começam agora a traçar sua estratégia para convencer aqueles que não votaram em Dilma Rousseff a optar por sua candidatura. É interessante tentar entender, então, por que a candidata escolhida a dedo por Lula, um presidente com cerca de 80% de popularidade, não venceu o pleito já no primeiro turno. Por que, afinal, 54 milhões de eleitores preferiram dar seu voto a um dos outros oito candidatos? E por que 47 milhões de eleitores mostraram-se convencidos de que Dilma é a melhor opção para o Brasil?

Quem votou em Dilma claramente está feliz com o estado atual do Brasil. Não com tudo, obviamente, já que o país ainda tem problemas (na saúde, segurança, habitação etc) que levam gerações para ser solucionados. Mas os eleitores da candidata do governo querem a continuidade do que têm hoje, do projeto político e econômico de Lula. Isso inclui o forte investimento na área social, o aumento do poder de compra das classes menos favorecidas e o fortalecimento do setor público, do aumento da participação estatal na Petrobras à expansão do funcionalismo. Também inclui uma política externa mais agressiva, de liderança regional e engajamento em questões delicadas mundo afora. Mais: aqueles que votaram em Dilma podem até não gostar das críticas de Lula à imprensa e mesmo se indignar com as acusações de tráfico de influência na Casa Civil. Mas acreditam que tais problemas sejam menores diante do projeto do PT para o país, que reduziu a pobreza e a desigualdade ao mesmo tempo em que criou condições para altas taxas de crescimento econômico e colocou o Brasil num posto de importância crescente no cenário internacional. O eleitor de Dilma orgulha-se do Brasil de Lula.

Já quem não votou em Dilma Rousseff quer mudança. Provavelmente não concorda com a expansão do setor público ou com a relação de proximidade entre Estado e sindicalismo. Também talvez não concorde com a política externa mais ousada e muitas vezes polêmica adotada pelo Itamaraty de Celso Amorim, que claramente elevou o status internacional do Brasil, mas também o associou a alguns regimes controversos. Quem votou em José Serra, Marina Silva ou outros deve ainda ter se revoltado com as denúncias envolvendo a Casa Civil. Também pode não gostar da personalidade de Dilma Rousseff, tida por muitos como autoritária nas relações pessoais, nem da forma como o presidente Lula tem conduzido a relação entre governo e imprensa. A extrema confiança do governo federal em sua forma de lidar com o setor de comunicação pode atrair muitos brasileiros, que veem em ações da imprensa a tentativa de minar o Executivo. Mas também pode alienar outros, que querem governantes mais receptivos a críticas e investigações. Em tempo: os que não votam em Dilma alegando fisiologismo nas alianças políticas devem se lembrar que, no Brasil, a prática não foi patenteada por nenhuma legenda. A relação entre PT e PMDB sob Lula é parecida com a relação entre PSDB e PFL sob Fernando Henrique Cardoso. Justificável ou não, o modelo tem sido aplicado no Brasil de forma verdadeiramente democrática, ou seja, por praticamente todos.

Olhando para os argumentos acima, talvez seja mais fácil entender as opções dos brasileiros para o segundo turno. Não se tratará apenas de um plebiscito sobre o governo Lula ou sobre Dilma, já que agora o voto anti-Dilma não terá mais Marina Silva como opção. O tucano José Serra terá seu passado, seus projetos e sua personalidade avaliados tanto quanto os de Dilma. Pelo menos em tese, segundos turnos são úteis para que o debate em torno de propostas e estilos seja aprofundado e para que os eleitores decidam não necessariamente quem desejam ver no poder, mas quem preferem. Trata-se de uma escolha entre um e outro. Por que votar em um, por que votar no outro. Ou por que não votar em um ou não votar no outro. Agora é hora de decisão. É isto ou aquilo.

quarta-feira, 29 de setembro de 2010

terça-feira, 28 de setembro de 2010

COMO FUNCIONAM AS OFICINAS...



Como Funcionam as Oficinas para confecção e apresentação de fantoches
As oficinas funcionam da seguinte forma:
>Primeiro formaremos um grupo de 15 a 20 pessoas para estarmos desenvolvendo esse trabalho.
>Depois pedimos que eles tragam materiais reutilizáveis (não é interessante levarmos o material para os alunos, o ideal é que eles providenciem) despertando neles a consciência ambiental com a diminuição de resíduos sólidos domésticos.
>Em seguida, iremos confeccionar bonecos (fantoches) com esses materiais. Durante o processo de confecção, sempre estimulamos os alunos a pensarem em um nome para o boneco, pensar numa profissão, idade, história. Assim quando a fantoche ficar pronto, já terá personalidade.
>Com relação ao tempo, podemos desenvolver um trabalho de 3 horas, ou 3 meses.
No trabalho de 3 horas, faremos a confecção dos bonecos, sem tempo para maiores aprofundamentos.
No trabalho de 3 meses, uma vez por semana, depois da confecção dos bonecos, criaremos uma história coletivamente, com o objetivo de montarmos um espetáculo, onde trabalharemos com jogos teatrais e exercícios de desinibição. Esta trabalho, a meu ver, é um instrumento de transformação social, afinal, proporciona aos assistidos uma oportunidade de descobrirem uma vocação. Imaginem um teatro ambiental feito por jovens e crianças carentes. É uma verdadeira ferramenta de inclusão social.
>Esse trabalho é realizado na própria comunidade. Vamos até o local, necessitando apenas de uma sala ampla.
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SUGESTÕES DE OFICINAS
Oficina I
Duração: 3 horas
Público-Alvo: crianças de 8 a 12 anos / professores e interessados em geral
Conteúdo:
• História do Teatro de Bonecos no Brasil.
• Jogos teatrais e de familiarização com a arte.
• Confecção de bonecos usando materiais recicláveis.
• Divisão da turma em grupos, e elaboração de pequenas cenas teatrais.
Para oficinas fora da região metropolitana de BH, é necessário recurso para hospedagem, alimentação e transporte.
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Oficina II
Duração: 6 horas
Público-Alvo: professores e interessados em geral
Conteúdo:
• História do teatro de bonecos no Brasil.
• As várias técnicas de teatro de bonecos.
• Jogos teatrais e de familiarização com a arte.
• Confecção de bonecos usando materiais recicláveis.
• Confecção de bonecos de boca articulada: papelão, jornal e fita crepe.
• Criação coletiva de uma história e ser apresentada.
Para oficinas fora da região metropolitana de BH, é necessário recurso para hospedagem, alimentação e transporte.
Materiais Necessários
Para a confecção do bonecos de sucata, serão necessárias algumas ferramentas básicas como:
• tesoura
• cola branca
• papel branco
• tinta guache
• canetinha hidrocor
• pistola de cola quente
• papel crepom entre outros
Materiais Recicláveis Solicitados
Todo o material de casa ou do escritório sem função, pode servir para confeccionar bonecos de acordo com a criatividade das crianças.
• garrafas pet (vários tamanhos)
• jornal
• pedaços de retalhos
• miolo de papel higiênico
• tampinhas e botões
• copinhos de iogurtes e yakult
• lãs, cordões e fios

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

segunda-feira, 20 de setembro de 2010

I LLEDUC

No dia 04 de Setembro passado tivemos o nosso I Encontro Interdisciplinar de língua, Literatura e Educação - I LLEDUC - aqui no Polo Carpina. Foi um dia maravilhoso que pudemos assistir a uma Mesa Redonda com os professores executores das disciplinas do curso e da Coordenadora de Tutores da UFRPE, Sulanita Santos.

Tivemos também um Recital de poesias com alguns poetas da cidade e assistimos as apresentações dos trabalhos das alunas do curso.

Para finalizar as alunas e a comunidade em geral participaram de algumas oficinas pedagógicasa as quais foram ministradas pelos tutores virtuais e professores da UFRPE.

Foi um grande sucesso este dia para nós. Queremos dar os parabéns a todos que de uma forma ou de outra contribuíram para que este evento fosse realizado.

ATIVIDADES DIÁRIAS









quarta-feira, 4 de agosto de 2010

sábado, 31 de julho de 2010

Texto: A Moça Tecelã



TEXTO: A MOÇA TECELÃ
Marina Colasanti


Acordava ainda no escuro, como se ouvisse o sol chegando atrás das beiradas da noite. E logo sentava-se ao tear.
Linha clara, para começar o dia. Delicado traço cor de luz, que ela ia passando entre os fios estendidos, enquanto lá fora a claridade da manhã desenhava o horizonte.
Depois lãs mais vivas, quentes lãs iam tecendo hora a hora, em longo tapete que nunca acabava.
Se era forte demais o sol, e no jardim pendiam as pétalas, a moça colocava na lançadeira grossos fios cinzentos de algodão mais felpudo. Em breve, na penumbra trazida pelas nuvens, escolhia um fio de prata, que em pontos longos rebordava sobre o tecido. Leve, a chuva vinha cumprimentá-la à janela.
Mas se durante muitos dias o vento e o frio brigavam com as folhas e espantavam os pássaros, bastava a moça tecer com seus belos fios dourados, para que o sol voltasse a acalmar a natureza.
Assim, jogando a lançadeira de um lado para o outro e batendo os grandes pentes do tear para frente e para trás, a moça passava os seus dias.
Nada lhe faltava. Na hora da fome tecia um lindo peixe, com cuidado de escamas. E eis que o peixe estava na mesa, pronto para ser comido. Se sede vinha, suave era a lã cor de leite que entremeava o tapete. E à noite, depois de lançar seu fio de escuridão, dormia tranqüila.
Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
Mas tecendo e tecendo, ela própria trouxe o tempo em que se sentiu sozinha, e pela primeira vez pensou como seria bom ter um marido ao seu lado.
Não esperou o dia seguinte. Com capricho de quem tenta uma coisa nunca conhecida, começou a entremear no tapete as lãs e as cores que lhe dariam companhia. E aos poucos seu desejo foi aparecendo, chapéu emplumado, rosto barbado, corpo aprumado, sapato engraxado. Estava justamente acabando de entremear o último fio da ponta dos sapatos, quando bateram à porta.
Nem precisou abrir. O moço meteu a mão na maçaneta, tirou o chapéu de pluma, e foi entrando na sua vida.
Aquela noite, deitada contra o ombro dele, a moça pensou nos lindos filhos que teceria para aumentar ainda mais a sua felicidade.
E feliz foi, durante algum tempo. Mas se o homem tinha pensado em filhos, logo os esqueceu. Porque, descoberto o poder do tear, em nada mais pensou a não ser nas coisas todas que ele poderia lhe dar.
- Uma casa melhor é necessária, -- disse para a mulher. E parecia justo, agora que eram dois. Exigiu que escolhesse as mais belas lãs cor de tijolo, fios verdes para os batentes, e pressa para a casa acontecer.
Mas pronta a casa, já não lhe pareceu suficiente. – Para que ter casa, se podemos ter palácio? – perguntou. Sem querer resposta, imediatamente ordenou que fosse de pedra com arremates em prata.
Dias e dias, semanas e meses trabalhou a moça tecendo tetos e portas, e pátios e escadas, e salas e poços. A neve caía lá fora, e ela não tinha tempo para chamar o sol. A noite chegava, e ela não tinha tempo para arrematar o dia. Tecia e entristecia, enquanto sem parar batiam os pentes acompanhando o ritmo da lançadeira.
Afinal o palácio ficou pronto. E entre tantos cômodos, o marido escolheu para ela e seu tear o mais alto quarto da mais alta torre.
- É para que ninguém saiba do tapete, -- disse. E antes de trancar a porta à chave, advertiu: -- Faltam as estrebarias. E não se esqueça dos cavalos!
Sem descanso tecia a mulher os caprichos do marido, enchendo o palácio de luxos, os cofres de moedas, as salas de criados. Tecer era tudo o que fazia. Tecer era tudo o que queria fazer.
E tecendo, ela própria trouxe o tempo em que sua tristeza lhe pareceu maior que o palácio com todos os seus tesouros. E pela primeira vez pensou como seria bom estar sozinha de novo.
Só esperou anoitecer. Levantou-se enquanto o marido dormia sonhando com novas exigências. E descalça, para não fazer barulho, subiu a longa escada da torre, sentou-se ao tear.
Desta vez não precisou escolher linha nenhuma. Segurou a lançadeira ao contrário, e, jogando-a veloz de um lado para o outro, começou a desfazer o seu tecido. Desteceu os cavalos, as carruagens, as estrebarias, os jardins. Depois desteceu os criados e o palácio e todas as maravilhas que continha. E novamente se viu na sua casa pequena e sorriu para o jardim além da janela.
A noite acabava quando o marido, estranhando a cama dura, acordou e, espantado, olhou em volta. Não teve tempo de se levantar. Ela já desfazia o desenho escuro dos sapatos, e ele viu seus pés desaparecendo, sumindo as pernas. Rápido, o nada subiu-lhe pelo corpo, tomou o peito aprumado, o emplumado chapéu.
Então, como se ouvisse a chegada do sol, a moça escolheu uma linha clara. E foi passando-a devagar entre os fios, delicado traço de luz, que a manhã repetiu na linha do horizonte.

de Marina Colasanti.

quarta-feira, 28 de julho de 2010

Minibiografia

Clarice Lispector nasceu na Ucrânia, mas chegou no Brasil com dois meses de idade. Em 1924
mudou-se para o Recife, chegando a frequentar o colégio João Barbalho. Ficou órfã de mãe aos
oito anos. Em seguida, três anos depois, foi residir no Rio de Janeiro, devido á transferência de
seu pai para aquele estado. Seus estudos un9iversitários tiveream início em 1939. Formou-se em
direito em 1943. Trabalhou como jornalista no jornal A Noite. Ao casar com o diplomata Maury
Gurgel Valente, passou a viver muitos anos fora do Brasil. Publicou Perto do Coração Selvagem,
seu primeiro romance em 1944. Ganhou o Prêmio Graça Aranha, da Academia Brasileira de
Letras, em 1945. Publicou vários romances e livros de conto. Posui diversas obras editadas em
países estrangeiros. Seu último romance publicado foi A Hora da Estrela, o qual foi adaptado
para o cinema em 1985. Faleceu em consequência de câncer, um dia antes de completar seus
57 anos.
Leia mais sobre essa grande escritora no site http://educacao.uol.com.br/biografias/
ult1789u592.jhtm.

Uma galinha - Texto de Clarice Lispector



Uma galinha
Clarice Lispector
Era uma galinha de domingo. Ainda viva porque não passava de nove horas da
manhã.
Parecia calma. Desde sábado encolhera-se num canto da cozinha. Não olhava para
ninguém, ninguém olhava para ela. Mesmo quando a escolheram, apalpando sua intimidade
com indiferença, não souberam dizer se era gorda ou magra. Nunca se adivinharia nela um
anseio.
Foi pois uma surpresa quando a viram abrir as asas de curto vôo, inchar o peito e,
em dois ou três lances, alcançar a murada do terraço. Um instante ainda vacilou – o tempo
da cozinheira dar um grito – e em breve estava no terraço do vizinho, de onde, em outro
vôo desajeitado, alcançou o telhado. Lá ficou em adorno deslocado, hesitando ora num, ora
noutro pé. A família foi chamada com urgência e consternada viu o almoço junto de uma
chaminé. O dono da casa, lembrando-se da dupla necessidade de fazer esporadicamente
algum esporte e de almoçar, vestiu radiante um calção de banho e resolveu seguir o itinerário
da galinha: em pulos cautelosos alcançou o telhado onde esta, hesitante e trêmula, escolhia
com urgência outro rumo. A perseguição tornou-se mais intensa. De telhado a telhado foi
percorrido mais de um quarteirão de rua. Pouco afeita a uma luta mais selvagem pela vida,
a galinha tinha que decidir por si mesma os caminhos a tomar, sem nenhum auxílio de sua
raça. O rapaz, porém, era um caçador adormecido. E por mais intima que fosse a presa o
grito de conquista havia soado.
Sozinha no mundo, sem pai nem mãe, ela corria, arfava, muda, concentrada. Às
vezes, na fuga, pairava ofegante num beiral de telhado e enquanto o rapaz galgava outros
com dificuldade tinha tempo de se refazer por um momento. E então parecia tão livre.
Estúpida, tímida e livre. Não vitoriosa como seria um galo em fuga. Que é que havia
nas suas vísceras que fazia dela um ser? A galinha é um ser. É verdade que não se poderia
contar com ela para nada. Nem ela própria contava consigo, como. o galo crê na sua crista.
Sua única vantagem é que havia tantas galinhas que morrendo uma surgiria no mesmo
instante outra tão igual como se fora a mesma.
Afinal, numa das vezes em que parou para gozar sua fuga, o rapaz alcançou. Entre
gritos e penas, ela foi presa. em seguida carregada em triunfo por uma asa através das
telhas e pousada no chão da cozinha com certa violência. Ainda tonta, sacudiu-se um pouco,
em cacarejos roucos e indecisos.
Foi então que aconteceu. De pura afobação a galinha pôs um ovo. Surpreendida,
exausta. Talvez fosse prematuro. Mas logo depois, nascida que fora para a maternidade,
parecia uma velha mãe habituada. Sentou-se sobre o ovo e assim ficou, respirando,
abotoando e desabotoando os olhos. Seu coração, tão pequeno num prato, solevava
e abaixava as penas, enchendo de tepidez aquilo que nunca passaria de um ovo. Só a
menina estava perto e assistiu tudo estarrecida. Mal porém conseguiu desvencilhar-se do
acontecimento, despregou-se do chão e saiu aos gritos:
Mamãe, mamãe, não mate mais a galinha, ela pôs um ovo! Ela quer o nosso bem!
Todos correram de novo à cozinha e rodearam mudos a jovem parturiente.
Esquentando seu filho, esta não era nem suave nem arisca, nem alegre nem triste, não era
nada, era uma galinha. O que não sugeria nenhum sentimento especial. O pai, a mãe e
a filha olhavam já há algum tempo, sem propriamente um pensamento qualquer. Nunca
ninguém acariciou uma cabeça de galinha. O pai afinal decidiu-se com certa brusquidão:
14
Teoria da literatura
– Se você mandar matar esta galinha nunca mais comerei galinha na minha vida!
– Eu também! - jurou a menina com ardor.
A mãe, cansada, deu de ombros.
Inconsciente da vida que lhe fora entregue, a galinha passou a morar com a família.
A menina, de volta do colégio, jogava a pasta longe sem interromper a corrida para a
cozinha. O pai de vez em quando ainda se lembrava: “E dizer que a obriguei a correr naquele
estado!” A galinha tornara-se a rainha da casa. Todos, menos ela, o sabiam. Continuou
entre a cozinha e o terraço dos fundos, usando suas duas capacidades: a da apatia e a do
sobressalto
Mas quando todos estavam quietos na casa e pareciam tê-la esquecido, enchiase
de uma pequena coragem, resquícios da grande fuga e circulava pelo ladrilho, o corpo
avançando atrás da cabeça, pausado como num campo, embora a pequena cabeça a
traísse: mexendo-se rápida e vibrátil, com o velho susto de sua espécie já mecanizado.
uma vez ou outra, sempre mais raramente, lembrava de novo a galinha que se
recortara contra o ar à beira do telhado, prestes a anunciar. Nesses momentos enchia os
pulmões com o ar impuro da cozinha e, se fosse dado às fêmeas cantar, ela não cantaria
mas ficaria muito mais contente. Embora nesses instantes a expressão de sua vazia cabeça
se alterasse. Na fuga, no descanso, quando deu à luz ou bicando milho – era uma cabeça de
galinha, a mesma que fora desenhada no começo dos séculos.
Até que um dia mataram-na, comeram-na e passaram-se anos.
Clarice Lispector,
Laços de família. Rio, Francisco Alves, 2ª ed., 1961.

quarta-feira, 21 de julho de 2010

ENCONTRO INTERDISCIPLINAR DE LÍNGUA, LITERATURA E EDUCAÇÂO

UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO
UNIDADE ACADÊMICA DE EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA E TECNOLOGIA
CURSO DE LETRAS A DISTÂNCIA

LLEDUC
Encontro Interdisciplinar de Língua, Literatura e Educação
Polo Pesqueira 28 de agosto de 2010
Polo Carpina 04 de setembro de 2010

PROGRAMAÇÃO DAS OFICINAS PEDAGÓGICAS

Polo Carpina 04 de setembro de 2010

TEMA DA OFICINA DATA E LOCAL
OF.01 OFICINA: “APRESENTAÇÕES PARA NOSSAS AULAS”
Formadores/Mediadores: Sandra Serralva e Audrey Rejane

Ementa: Reflexão sobre os efeitos da apresentação (participantes e aprendizagem); possibilidades de utilização; conhecimento das ferramentas.
Polo Carpina 04 de setembro

OF.02 OFICINA: DIÁLOGO ENTRE LINGUAGENS: MPB E LITERATURA
Formadores/Mediadores: Jessica Sabrina de Oliveira Menezes

Ementa: A presente oficina propõe uma análise comparativa entre canções da MPB de artistas como Chico Buarque, Cássia Eler, Caetano Veloso, Gilberto Gil e Renato Russo, e textos literários brasileiros, especialmente de escritores modernos e contemporâneos – com exceção de Camões e Gregório de Mattos - como Elisa Lucinda, Carlos Drummond de Andrade, Adélia Prado, Affonso Romano de Sant’Anna e Hilda Hilst. Vale ressaltar que, através da comparação proposta, pretende-se trabalhar conceitos advindos dos escritos bakhtinianos, como dialogismo, polifonia e intertextualidade, pois que estes oferecem subsídios à compreensão do fenômeno literário.
Polo Carpina 04 de setembro

OF.03 OFICINA: (H Q) HISTÓRIAS EM QUADRINHOS: LEITURA E PRODUÇÃO TEXTUAL

Formadores/Mediadores: Claudemir dos Santos Silva; Ednaldo Gomes da Silva; Josemir Pedro da Silva; Synara de Lima Silva


Ementa: Pretende-se através desta oficina, discorrer sobre o “universo criador” deste Gênero Textual, conhecer um pouco da biografia de Maurício de Souza (Um dos grandes idealizadores e pioneiros dos Quadrinhos e da tão conhecida Turma da Mônica) bem como, podermos explorar temáticas como: Variação Linguística, Preconceito Linguístico (sofrido pelo personagem Chico Bento), observar o problema da Dislexia (vivido por Cebolinha) e a presença freqüente das onomatopéias (figura de linguagem) atuante nas produções de HQ.
Polo Carpina 04 de setembro

Of.04 OFICINA: NOVA ORTOGRAFIA
Formadores/Mediadores: Ewerton Ávila dos Anjos Luna

Ementa: Análise da reforma orográfica, observando novas regras propostas para o acordo ortográfico.
Polo Carpina 04 de setembro

Of. 05 OFICINA: SONS, VERSOS E RITMOS: DA HARMONIA À INTERTEXTUALIDADE
Formadores/Mediadores: Iraquitan Jonatan Rodrigues

Descobrir a harmonia das palavras é um convite para embarcar numa viagem que parte do texto e segue para onde sua imaginação conseguir lhe levar. Sons, versos e ritmos será o laboratório ideal para descobrir o autor, o artista, o poeta e o profissional inovador que existe dentro de Você. Polo Carpina 04 de setembro

sábado, 10 de julho de 2010

O que é Linguagem?



O que é Linguagem?

A linguagem pode ser entendida como toda e qualquer organização de signos através da qual o ser humano dá formas às suas experiências e vivências, interagindo com o meio que o cerca.


As Libras, as placas de trânsito, o texto escrito, o braile, etc. são exemplos de algumas das linguagens que utilizamos no nosso cotidiano.
Concepções de linguagem
Concepções de linguagem

Concepções de Linguagem

A linguagem pode ser concebida de diferentes maneiras:

 Linguagem como expressão do pensamento
 Linguagem como meio de interação
 Linguagem como forma de interação

Linguagem como expressão de pensamento

De acordo com essa concepção de linguagem, as pessoas que não se expressam bem não o fazem porque não são capazes de pensar. A expressão é processada no interior da mente e sua exteriorização é apenas uma expressão do pensamento.

Essa concepção de linguagem é muito restrita, uma vez que sabemos que há pessoas que não se expressam bem oralmente ou através da escrita, mas isso não significa que elas não pensam, não é?

Representando através de imagem essa concepção de linguagem, teríamos o seguinte: A pessoa não consegue produzir um texto porque não pensa. Estranho, não é? Então, melhor pensarmos em outra concepção de linguagem!

De acordo com essa concepção, um emissor emite a um receptor uma mensagem através de um código, e esse receptor recebe a mensagem tal qual foi enviada pelo emissor.

Essa concepção também é muito restrita, pois não há construção de sentido da mensagem por parte de quem a recebe. O receptor da mensagem a entende da mesma forma como ela é transmitida.


Conforme essa concepção, a linguagem não se manifesta apenas na transmissão de informações entre um emissor e um receptor. É mais do que isso: é um meio de interação social.

Essa concepção considera que há construção de sentido por parte de quem recebe a informação, pois o leitor/ouvinte ativa conhecimentos de várias naturezas (linguístico, textual e de mundo) para entender a informação.

Alguns Conceitos sobre Literatura



Você já tentou encontrar uma definição para a palavra Literatura? Já foi ao
dicionário com a finalidade de esclarecer este termo?
De acordo com Vitor Manuel de Aguiar (1988), a palavra Literatura em língua
portuguesa foi documentada pela primeira vez em um texto datado de 21 de março de
1510. Inicialmente, o significado de Literatura abrangia tudo o que estivesse relacionado
à letra, à arte de escrever e ler. O indivíduo letrado (sentido popular) ou o literato (sentido
erudito) era aquele conhecedor da gramática, que sabia desenhar e decifrar as letras. Com
o tempo, Literatura passou a designar o conjunto da produção literária de um determinado
país.
As Artes diferenciam-se umas das outras por sua forma de expressarem-se e pela
matéria prima que utilizam. As Artes Plásticas fazem uso da tinta e do pincel; a Música toma
forma através do som; a Dança emprega o movimento para dar vida à sua Arte. E a Literatura
traduz sentimentos e impressões mediante o jogo das palavras. Entretanto, para fazer
Literatura não basta usar uma porção de palavras. O artista da palavra por vezes enfrenta
um verdadeiro combate na busca pela palavra certa. O nosso poeta Carlos Drummond de
Andrade nos fala muito bem sobre isto.

sexta-feira, 9 de julho de 2010

DICAS DE LEITURA




UNIVERSIDADE FEDERAL RURAL DE PERNAMBUCO
CURSO DE LICENCIATURA EM LETRAS/Língua Portuguesa
EDUCAÇÃO A DISTÂNCIA



Olá, Cursista!
É muito importante que você vá ampliando suas leituras. Além do material didático, é bom você procurar ler outras obras, textos, livros , sites que abordem questões relativas à Teoria Literária. Observa as dicas de leitura a seguir e continue estudando.
Abraços,
Ivanda Martins
Profª Executora


AMORA, Antônio Soares. Introdução à Teoria da Literatura. São Paulo: Cultrix, 1992.
Resumo da obra: A parte inicial do livro contém uma introdução geral à Teoria Literária. A segunda parte apresenta considerações essenciais sobre cada um dos assuntos de que se ocupam os teóricos da literatura: a obra, o autor, o leitor, etc. A terceira e última parte tece considerações sobre as relações entre Teoria da Literatura com os demais estudos literários (a análise literária, a crítica literária, a historiografia literária) e com outras disciplinas (a Linguística, a Estilística e a Psicologia).



SOUZA, Roberto Acízelo. Teoria da Literatura. São Paulo: Ática, série princípios. 1991.
Resumo da obra: Este livro contribui para o estabelecimento de várias questões-chave da Teoria da Literatura, tais como: modos de teorizar sobre a literatura; relacionamentos com as demais disciplinas literárias e humanísticas; objeto e método; principais correntes; finalidades e histórico da Teoria Literária.


PROENÇA FILHO, Domício. A linguagem literária. São Paulo: Ática, série princípios. 1987.
Resumo da obra: A linguagem literária é estudada a partir das características e das funções bastante distintas que ela apresenta, quando confrontada como discurso cotidiano. O autor focaliza a natureza do signo, da comunicação, do discurso, do significado, do significante, da mimese e dos gêneros literários.

quarta-feira, 30 de junho de 2010

A propaganda precisa voltar a contar boas histórias




Ruy Lindenberg, especial para o iGA propaganda precisa voltar a contar boas histórias
As mídias se multiplicaram, mas, no mercado publicitário, a essência do trabalho ainda é a criatividade
02/06/2010 16:41
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Foto: Divulgação
Ruy Lindenberg, vice-presidente de criação da Leo Burnett Brasil
Na publicidade, a melhor definição para profissional criativo, na minha opinião, é a de contador de histórias. Pode parecer pouco, mas se você fizer isso direito, com certeza vai ajudar seus clientes a conquistar negócios, sua agência a ganhar dinheiro e você a ter uma carreira de sucesso. Estes tempos de novas mídias apresentam oportunidades que nunca existiram, mas me pergunto se seremos bons contadores de histórias nesta nova realidade. Para enxergar isso melhor, seria bom uma olhada no que está acontecendo fora do mundinho da propaganda.

Na China, que já copiou quase tudo do ocidente, alguns produtos estão ficando melhores do que os originais. Um amigo meu, que voltou de lá recentemente, visitou um desses parques temáticos que conhecemos tão bem e esteve numa atração inspirada na Torre do Terror da Disney. Só que a experiência que ele teve foi completamente diferente. Ao invés de apenas subir e cair, essa viagem de elevador acontece no prédio de uma companhia petrolífera - e alguns dos seus personagens estão envolvidos numa complicada conspiração e interagem com o público. No rápido sobe-e-desce do elevador, temos a tentativa de assassinato do CEO, a amante do executivo principal arma um barraco no elevador em queda livre e tudo termina com um executivo gay morimbundo nos braços dos turistas no final da viagem. Ufa...

Neste momento, você deve estar se perguntando: mas o que tem isso a ver com propaganda? Absolutamente tudo. A tecnologia mudou, o público mudou, a concorrência mudou, as motivações mudaram e a internet, os eventos e o merchadising estão mais sofisticados. E todas essas plataformas estão esperando por uma boa história.

Exemplos no teatro, no cinema e no samba

O coreógrafo Matthew Bourne deu há quatro meses uma entrevista maravilhosa à revista "The Economist". Tido como um dos profissionais de teatro mais revolucionários do mundo, ele se considera apenas um contador de histórias. “Eu faço isso por meio do movimento. E sempre busco novas histórias, mais interessantes, mais originais. Por isso tenho tentado trabalhar com compositores jovens. Com os que já morreram, você tem menos diálogo (risos)", disse Bourne.

Ele continua: "aos 50 anos, ainda sou um aprendiz. Quando lanço um espetáculo, durante um, dois meses seguidos, me sento no meio do público. E nunca deixo de me surpreender com o que aprendo ali. O público devolve imediatamente o que passamos para ele. Tanto que um dia nunca é igual ao outro. Por isso nós temos que ser claros, simples, perfeitos no movimento, na música, no timing, na expressão, na iluminação. Eu sou curioso com o público, tanto quanto ele é com o meu espetáculo. E ele retribui minha atenção me dando lições todos os dias, de graça”.

Na indústria cinematográfica, o argentino Juan José Campanella, diretor de "O Filho da Noiva" e "O Segredo dos Seus Olhos" - este, premiado com Oscar de melhor filme estrangeiro em 2010 -, declarou que seu próximo trabalho será em 3D. O motivo é simples: “Em cinco ou seis anos, fazer um filme que não seja em 3D será uma decisão criativa, como é hoje rodar em preto e branco. Essa tecnologia veio para ficar e eu me vejo dirigindo um filme em 3D com atores reais. Meu trabalho é contar histórias e isso não vai mudar, mesmo com todos os avanços. O problema de Hollywood é que eles se perderam pelo caminho da tecnologia”.

No dia 19 de março, o jornal "O Estado de S. Paulo" publicou uma reportagem sobre o centenário do nascimento de Adoniran Barbosa, autor de "Saudosa Maloca" (dos versos "o Arnesto nus convidô prum samba / Ele mora no Brás / Nóis fumo, não encontremos ninguém"). Para a matéria, entrevistaram o personagem do samba do Adoniram, o Arnesto. “Nunca convidei o Adoniran para um samba na minha casa”, disse o Arnesto de carne e osso, aos 95 anos. Ele - que na verdade se chama Ernesto e morava na Moóca (na zona leste de São Paulo), não no Brás (bairro da região central da cidade) -, uma vez reclamou com o amigo sobre sua composição. Adoniran respondeu: “Arnesto, se não tivesse mancada não tinha samba. Segura essa prá mim, tá?”

A criatividade ainda é a essência

Na propaganda, as nossas possibilidades de contar histórias se ampliaram imensamente nos últimos anos. A TV ainda é um poderoso veículo de massa, o rádio tem um público fiel - em parte, graças aos congestionamento das cidades -, os jornais continuam com credibilidade e as revistas têm ampliado sua segmentação. E mais: a indústria de games já é um negócio maior do que a indústria de música; as empresas que produzem aplicativos para celulares e redes sociais, por sua vez, são milhares espalhadas pelo mundo. Só a Apple Store oferece mais de 100 mil aplicativos. Os shows e os espetáculos se tornaram veículos de comunicação patrocinados por empresas poderosas.

Isso significa um desafio gigantesco para todos, especialmente para as escolas de comunicação e as novas gerações de profissionais. Como ensinar criação em novas mídias quando alguns alunos não aprenderam a trabalhar naquelas que são consideradas do passado? Se você pedir a um redator um spot de rádio, talvez tenha dificuldade em conseguir algo interessante, instigante. Basta ouvir o que as nossas rádios andam veiculando.

Por isso, fiquei muito contente outro dia quando um jovem e talentoso redator da agência, Michel Zveibil, rato de internet e de novas mídias, me mostrou o que estava lendo: "Story", um livro do conhecido roterista Robert Mckee. Nas mais de 400 páginas, ele dá dicas fundamentais de como estruturar um roteiro, torndo-o emocionante, surpreendente.

Acho que o Michel, como alguns jovens profissionais de criação e de outras áreas da propaganda, entenderam o recado: a história ainda é a coisa mais importante, não importa se ela é contada na mídia de massa ou nas mídias sociais. E para isso é preciso tempo para pensar, talento para criar e coragem para experimentar.

O trabalho brilhante de hoje não é mais propriedade apenas de um departamento, mas tarefa de toda uma agência. Este é o novo desafio da propaganda brasileira.

Ruy Lindenberg é vice-presidente de criação da Leo Burnett Brasil. E-mail: ruy.lindenberg@leoburnett.com.br

Atividades Cotidianas







O Barril de Amontillado, de Edgar Alan Poe



Suportei o melhor que pude as mil e uma injúrias de Fortunato; mas quando começou a entrar pelo insulto, jurei vingança. Vós, que tão bem conheceis a natureza da minha índole, não ireis supor que me limitei a ameaçar. Acabaria por vingar-me; isto era ponto definitivamente assente, e a própria determinação com que o decidi afastava toda e qualquer idéia de risco. Devia não só castigar, mas castigar ficando impune. Um agravo não é vingado quando a vingança surpreende o vingador. E fica igualmente por vingar quando o vingador não consegue fazer-se reconhecer como tal àquele que o ofendeu.

Deve compreender-se que nem por palavras, nem por atos, dei motivos a Fortunato para duvidar da minha afeição. Continuei, como era meu desejo, a rir-me para ele, que não compreendia que o meu sorriso resultava agora da idéia da sua imolação.

Tinha um ponto fraco, este Fortunato sendo embora, sob outros aspectos, homem digno de respeito e mesmo de receio. Orgulhava-se da sua qualidade de entendido em vinhos. Poucos italianos possuem o verdadeiro espírito de virtuosidade. Na sua maior parte, o seu entusiasmo é adaptado às circunstâncias de tempo e de oportunidade para ludibriar milionários britânicos e austríacos. Em pintura e pedras preciosas, Fortunato, à semelhança dos seus concidadãos, era um charlatão, mas na questão de vinhos era entendido. Neste aspecto eu não diferia substancialmente dele: eu próprio era entendido em vinhos de reserva italianos, e comprava-os em grandes quantidades sempre que podia.

Foi ao escurecer, numa tarde de grande loucura da quadra carnavalesca, que encontrei o meu amigo. Acolheu-me com excessivo calor, pois bebera de mais. Trajava de bufão; um fato justo e parcialmente às tiras, levando na cabeça um barrete cônico com guizos. Fiquei tão contente de o ver que julguei que nunca mais parava de lhe apertar a mão.

- Meu caro Fortunato - disse eu -, ainda bem que o encontro. Você tem hoje uma aparência notável! Saiba que recebi um barril de um vinho que passa por ser amontillado; mas tenho cá as minhas dúvidas.

- O quê? - disse ele - Amontillado? Um barril? Impossível! E em pleno Carnaval!

- Tenho as minhas dúvidas - respondi -, e estupidamente paguei o verdadeiro preço do amontillado sem ter consultado o meu amigo. Não o consegui encontrar e tinha receio de perder o negócio!

- Amontillado!

- Tenho as minhas dúvidas - insisti.

- Amontillado!

- E tenho de as resolver.

- Amontillado!

- Como vejo que está ocupado, vou procurar Luchesi. Se existe alguém com espírito crítico, é ele. Ele me dirá.

- Luchesi não distingue amontillado de xerez.

- No entanto, há muito idiota que acha que o seu gosto desafia o do meu amigo.

- Venha, vamos lá.

- Aonde?

- À sua cave.

- Não, meu amigo, não exigiria tanto da sua bondade. Vejo que tem compromissos. Luchesi...

- Não tenho compromisso nenhum, vamos.

- Não, meu amigo. Não será o compromisso, mas aquele frio terrível que bem sei que o aflige. A cave é insuportavelmente úmida. Está coberta de salitre.

- Mesmo assim, vamos lá. O frio não é nada. Amontillado! Você foi ludibriado. E quanto a Luchesi, não distingue xerez de amontillado.

Assim falando, Fortunato pegou-me pelo braço. Depois de pôr uma máscara de seda preta e de envergar um roquelaire cingido ao corpo, tive que suportar-lhe a pressa que levava a caminho do meu palacete.

Não havia criados em casa; tinham desaparecido todos para festejar aquela quadra. Eu tinha-lhes dito que não voltaria senão de manhã e dera-lhes ordens explícitas para se não afastarem de casa. Ordens essas que foram o suficiente, disso estava eu certo, para assegurar o rápido desaparecimento de todos eles, mal voltara costas.

Retirei das arandelas dois archotes e, dando um a Fortunato, conduzi-o através de diversos compartimentos até à entrada das caves. Desci uma grande escada de caracol e pedi-lhe que se acautelasse enquanto me seguia. Quando chegamos ao fim da descida encontrávamo-nos ambos sobre o chão úmido das catacumbas dos Montresors.

O andar do meu amigo era irregular e os guizos da capa tilintavam quando se movia.

- O barril? - perguntou.

- Está lá mais para diante - disse eu -, mas veja a teia branca de aranha que cintila nas paredes da cave.

Voltou-se para mim e pousou nos meus olhos duas órbitas enevoadas pelos fumos da intoxicação.

- Salitre? - perguntou por fim.

- Sim - respondi. - Há quanto tempo tem essa tosse?

- Cof!, cof!, cof! cof!, cof!, cof!

O meu amigo ficou sem poder responder-me durante bastante tempo.

- Não é nada - acabou por dizer.

- Venha - disse-lhe com decisão. - Retrocedamos, a sua saúde é preciosa. Você é rico, respeitado, admirado, amado; você é feliz como eu já o fui em tempos. Você é um homem cuja falta se sentiria. Quanto a mim, não importa. Retrocedamos. Ainda é capaz de adoecer e não quero assumir tal responsabilidade. Além disso, há Luchesi...

- Basta! - replicou. - A tosse não é nada, não me vai matar. Não vou morrer por causa da tosse.

- Pois decerto que não, pois decerto - respondi -; não é minha intenção alarmá-lo desnecessariamente, mas deve usar de cautela. Um gole deste médoc defender-nos-á da umidade.

Quebrei o gargalo de uma garrafa que retirei de uma longa fila de muitas outras iguais que jaziam no bolor.

- Beba - disse, apresentando-lhe o vinho.

Levou-o aos lábios, olhando-me de soslaio. Fez uma pausa e abanou a cabeça significativamente, enquanto os guizos tilintavam.

- Bebo - disse - aos mortos que repousam à nossa volta.

- E eu para que você viva muito.

Novamente me tomou pelo braço e prosseguimos.

- Estas catacumbas são enormes - disse ele.

- Os Montresors - respondi - constituíam uma família grande e numerosa.

- Não me lembro do vosso brasão.

- Um enorme pé humano, de ouro, em campo azul; o pé esmaga uma serpente rastejante cujas presas estão ferradas no calcanhar.

- E a divisa?

- Nemo me impune lacessit

- Ótimo! - disse ele.

O vinho brilhava no seu olhar e os guizos tilintavam. A minha própria disposição melhorara com o médoc. Tinha passado por entre paredes de ossos empilhados, à mistura com barris e barris, nos mais recônditos escaninhos das catacumbas. Parei novamente e desta vez fiz questão de segurar Fortunato por um braço, acima do cotovelo.

- Salitre! - disse eu -, veja como aumenta. Parece musgo nas abóbadas. Estamos sob o leito do rio. As gotas de umidade escorrem por entre os ossos. Venha, vamo-nos embora que já é muito tarde. A sua tosse...

- Não faz mal - retorquiu -, continuaremos. Antes, porém, mais um trago de rnédoc.

Abri e passei-lhe uma garrafa de De Grâve. Despejou-a de um trago. Os olhos brilharam-lhe com um fulgor feroz. Riu e atirou a garrafa ao ar, com uns gestos que não entendi.

Olhei-o surpreso. Repetiu o movimento grotesco.

- Não compreende?

- Não, não compreendo - respondi.

- Então não pertence à irmandade.

- Como?

- Quero eu dizer que não pertence à Maçonaria.

- Sim, sim - disse -, sim, pertenço.

- Você? Impossível! Um maçon?

- Sim, um maçon - respondi.

- Um sinal - disse ele.

- Aqui o tem - retorqui, mostrando uma colher de pedreiro que retirei das dobras do meu roquelaire.

- Está a brincar - exclamou, recuando alguns passos. - Mas vamos lá ao amontillado.

- Assim seja - disse eu, tornando a colocar a ferramenta sob a capa e tornando a oferecer-lhe o meu braço. Apoiou-se nele pesadamente. Continuamos o nosso caminho em procura do amontillado. Passamos por uma série de arcos baixos, descemos, atravessamos outros, descemos novamente e chegamos a uma profunda cripta na qual a rarefação do ar fazia com que os archotes reluzissem em vez de arderem em chama.

No ponto mais afastado da cripta havia uma outra cripta menos espaçosa. As paredes tinham sido forradas com despojos humanos, empilhados até à abóbada, à maneira das grandes catacumbas de Paris. Três das paredes desta cripta interior estavam ainda ornamentadas desta maneira. Na quarta parede, os ossos tinham sido derrubados e jaziam promiscuamente no solo, formando num ponto um montículo de certo vulto. Nessa parede assim exposta pela remoção dos ossos, percebia-se um recesso ainda mais recôndito, com um metro e vinte centímetros de fundo, noventa centímetros de largo e um metro e oitenta a dois metros e dez de alto. Parecia não ter sido construído com qualquer fim específico, constituindo apenas o intervalo entre dois dos colossais suportes do teto das catacumbas, e era limitado, ao fundo, por uma das paredes circundantes em granito sólido.

Foi em vão que Fortunato, levantando o seu tíbio archote, tentou sondar a profundidade do recesso. A enfraquecida luz não nos permitia ver-lhe o fim.

- Continue - disse eu -, o amontillado está aí dentro. Quanto a Luchesi...

- É um ignorante - interrompeu o meu amigo, enquanto avançava, vacilante, seguido por mim. Num instante atingira o extremo do nicho, e vendo que não podia continuar por causa da rocha, ficou estupidamente desorientado. Um momento mais e tinha-o agrilhoado ao granito. Havia na parede dois grampos de ferro, distantes um do outro, na horizontal, cerca de sessenta centímetros. De um deles pendia uma pequena corrente e do outro um cadeado. Lançar-lhe a corrente em volta da cintura e fechá-la foi obra de poucos segundos. Ficara demasiado surpreendido para oferecer resistência. Retirei a chave e recuei.

- Passe a mão pela parede - disse eu. - Não deixará de sentir o salitre. Na realidade está muito úmido. Mais uma vez lhe suplico que nos retiremos. Não lhe convém? Nesse caso, tenho realmente de o deixar. Mas, primeiro, quero prestar-lhe todas as pequenas atenções ao meu alcance.

- O amontillado! - berrou o meu amigo, que se não recompusera ainda do espanto em que se encontrava.

- É verdade - respondi. - O amontillado.

Ao dizer isto, pus-me a procurar com todo o afã por entre as pilhas de ossos de que já falei. Atirando com eles para o lado, pus a descoberto uma quantidade de pedras e argamassa. Com estes materiais e com a ajuda da minha colher de pedreiro, comecei a entaipar com todo o vigor a entrada do nicho.

Mal tinha colocado a primeira fiada de pedras quando descobri que a embriaguez de Fortunato tinha em grande parte desaparecido. A este respeito, o primeiro indício foi-me dado por um longo gemido vindo da profundidade do recesso. Não era o gemido de um ébrio. Sucedeu-se um prolongado e obstinado silêncio. Pus a segunda fiada de pedras, a terceira e a quarta. Em seguida ouvi as vibrações furiosas da corrente. O ruído prolongou-se por alguns minutos, durante os quais, para me ser possível ouvi-lo com maior satisfação, suspendi a minha tarefa e sentei-me no montículo de ossos. Quando finalmente cessou o tilintar, retomei a colher de pedreiro e completei sem interrupção a quinta, a sexta e a sétima fiadas. A parede estava agora quase ao nível do meu peito. Parei novamente e, elevando o archote acima do parapeito, fiz incidir alguns raios de luz sobre a figura que lá estava dentro.

Uma sucessão de gritos altos e agudos, irrompendo de súbito da garganta da figura agrilhoada, quase me atirou violentamente para trás. Por um breve momento hesitei, tremi. Desembainhei o florete e com ele comecei a tatear o recesso, mas bastou pensar um momento para voltar a sentir-me seguro. Coloquei a mão sobre a sólida construção das catacumbas e fiquei satisfeito. Tornei a aproximar-me da parede. Respondi aos gritos daquele que clamava. Repeti-os como um eco, juntei-me a eles, ultrapassei-os em volume e força. Depois disto, o outro sossegou.

Era agora meia-noite e a minha tarefa aproximava-se do fim. Completara já a oitava, a nona e a décima fiadas. Tinha acabado uma porção da décima primeira e última; faltava apenas colocar e fixar uma pequena pedra. Lutava com o seu peso; coloquei-a parcialmente na posição que lhe cabia. Soltou-se então do nicho um riso abafado que me arrepiou os cabelos. Seguiu-se uma voz triste que tive dificuldade em reconhecer como sendo a do nobre Fortunato. Dizia aquela voz:

- Ah!, ah!, ah!, he!, he!, boa piada, de fato, excelente gracejo. Havemos de rir bastante acerca disto, lá no palácio, he!, he!, he!, acerca do nosso vinho, he!, he!, he!

- O amontillado? - disse eu.

- he!, he!, he!, he!, he!, he!, sim, o amontillado. Mas não estará a fazer-se tarde? Não estarão à nossa espera no palácio lady Fortunato e os convidados? Vamo-nos embora.

- Sim - disse eu -, vamo-nos.

- Pelo amor de Deus, Montresor!

- Sim - disse eu -, pelo amor de Deus!

Em vão esperei uma resposta a estas palavras. Comecei a ficar impaciente. Chamei em voz alta:

- Fortunato!

Não obtive resposta. Chamei novamente:

- Fortunato!

Continuei sem resposta. Meti um archote pela pequena abertura e deixei-o cair lá dentro. Em resposta ouvi apenas um tilintar de guizos. Senti o coração oprimido, dada a forte umidade das catacumbas. Apressei-me a pôr fim à minha tarefa. Forcei a última pedra no buraco, e fixei-a com a argamassa. De encontro a esta nova parede tornei a colocar a velha muralha de ossos. Durante meio século nenhum mortal os perturbou. In pace requiescat!